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Resposta direta

Doação de pai, mãe, avô ou avó para filho ou neto não é presente: é adiantamento de herança. O art. 544 do Código Civil dispõe que a doação de ascendentes a descendentes, ou de um cônjuge a outro, importa adiantamento do que lhes cabe por herança. Por isso, no inventário, o herdeiro que recebeu precisa conferir o valor do bem, o que se chama colação, para igualar as legítimas, nos termos dos arts. 2.002 e 2.003. Quem não confere pode ter o bem sequestrado ou o valor imputado ao seu quinhão, conforme o art. 641 do Código de Processo Civil. A dispensa só existe se o doador tiver determinado, no próprio título ou em testamento, que a doação saia da parte disponível.

É a briga de inventário mais previsível do Brasil. Um filho recebeu a casa em vida, com escritura, imposto pago e tudo certo. Vinte anos depois, morre o pai, e os irmãos descobrem que aquilo não era presente: era parte da herança adiantada. A conversa que começa com "mas foi doação, está no meu nome" termina quase sempre com o Código Civil dizendo o contrário. Vale entender a mecânica antes de doar e antes de assinar partilha.

Por que a doação volta para o inventário?

Porque a lei presume que o ascendente não quer favorecer um descendente em detrimento dos outros. O art. 544 do Código Civil estabelece que a doação de ascendentes a descendentes, ou de um cônjuge a outro, importa adiantamento do que lhes cabe por herança. Trata-se de presunção legal: a doação já é, desde a assinatura, uma antecipação do quinhão.

O mecanismo de ajuste é a colação. O art. 2.002 obriga os descendentes que concorrerem à sucessão do ascendente comum a conferir o valor das doações que dele em vida receberam, sob pena de sonegação, e o parágrafo único determina que, para cálculo da legítima, o valor dos bens conferidos será computado na parte indisponível, sem aumentar a disponível.

O art. 2.003 completa o desenho: a colação tem por fim igualar, na proporção estabelecida no Código, as legítimas dos descendentes e do cônjuge sobrevivente, obrigando também os donatários que, ao tempo do falecimento do doador, já não possuírem os bens doados. Quem vendeu o imóvel doado não escapa: confere o valor.

Colação não é devolver o bem

Esse é o ponto que mais tranquiliza quem recebeu. Colacionar, em regra, é trazer o valor para a conta, não devolver o imóvel para o acervo. O bem permanece com o donatário, e o que acontece é um ajuste aritmético: o valor da doação entra no cálculo e é imputado ao quinhão de quem recebeu.

Como a colação funciona na prática
CenárioResultado
A doação é menor que o quinhão do donatárioEle recebe a diferença nos bens do acervo
A doação equivale exatamente ao quinhãoEle não recebe mais nada, e os irmãos ficam com o acervo
A doação é maior que o quinhão, mas cabe na parte disponívelReduz-se até o limite, imputando-se o excesso à disponível
A doação excedeu a parte disponívelDoação inoficiosa: nula no excesso, pelo art. 549
O donatário já não tem o bemConfere o valor, pelo art. 2.003

A restituição em espécie aparece numa hipótese específica: o parágrafo único do art. 2.003 prevê que, se computados os valores das doações feitas em adiantamento de legítima não houver no acervo bens suficientes para igualar as legítimas, os bens doados serão conferidos em espécie ou, quando deles já não disponha o donatário, pelo seu valor ao tempo da liberalidade.

Por qual valor o bem é colacionado?

Aqui está a divergência mais relevante e mais caríssima do tema, e quem não a conhece assina partilha prejudicial.

Os dois textos apontam para marcos temporais diferentes: data da doação e data da morte. A questão é controvertida e decidida caso a caso pelos tribunais, com reflexo direto no resultado, porque um imóvel doado há vinte anos pode ter se valorizado muito acima da correção monetária. Em inventário com doação antiga, essa é a primeira tese a ser enfrentada, e ela muda de lado conforme quem você representa.

Há um ponto, porém, que não é controvertido: o § 2º do art. 2.004 diz que só o valor dos bens doados entrará em colação, não o das benfeitorias acrescidas, as quais pertencerão ao herdeiro donatário, correndo também à conta deste os rendimentos ou lucros, assim como os danos e perdas que eles sofrerem. Quem doou terreno e recebeu casa construída pelo filho colaciona terreno.

Doação antiga na família e inventário a caminho?

A diferença entre colacionar pelo valor da escritura antiga e pelo valor atual pode representar a maior parte da herança. O escritório levanta as doações, os valores e as teses aplicáveis antes de qualquer plano de partilha.

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Quando a doação está dispensada de colação?

Existe saída legal, e ela precisa estar escrita. O art. 2.005 do Código Civil dispõe que são dispensadas da colação as doações que o doador determinar saiam da parte disponível, contanto que não a excedam, computado o seu valor ao tempo da doação. E o art. 2.006 esclarece que essa dispensa pode ser outorgada pelo doador em testamento ou no próprio título de liberalidade.

Na prática, uma linha na escritura dizendo que a doação sai da parte disponível, com dispensa de colação, resolve em vida um litígio que custaria anos depois. É o detalhe mais barato e mais negligenciado do planejamento sucessório brasileiro.

O que acontece com quem se recusa a colacionar?

O Código de Processo Civil organiza o procedimento e prevê consequência concreta.

O art. 2.002 usa a expressão "sob pena de sonegação", e a sonegação de bens tem efeito severo no inventário, inclusive sobre quem exerce a inventariança.

Colação, doação inoficiosa e revogação: três coisas distintas

Confundir esses institutos é o erro técnico mais comum nessa matéria, e cada um tem prazo e pedido próprios.

Três ataques possíveis a uma doação em vida
InstitutoFundamentoQuando se discuteResultado
ColaçãoArts. 544, 2.002 a 2.006 do CC; arts. 639 a 641 do CPCNo inventárioValor é conferido para igualar legítimas
Doação inoficiosaArt. 549 do CCPode ser discutida em vida do doadorNulidade apenas da parte que excedeu a disponível
Revogação por ingratidãoArts. 555, 557 e 559 do CCEm um ano do conhecimento do fatoO bem retorna ao doador

Note a diferença de legitimidade e de momento: a nulidade da doação inoficiosa pode ser discutida sem esperar a morte, enquanto a colação pressupõe inventário aberto. Escolher o instrumento errado custa tempo e, com frequência, custa o prazo.

Cuidados práticos, antes e depois

Respostas rápidas

Em resumo

  • Doação de ascendente a descendente é adiantamento de legítima (art. 544 do Código Civil).
  • A colação iguala as legítimas e é de valor, não de devolução do bem, em regra.
  • Há divergência relevante sobre o marco de avaliação: art. 2.004 do CC aponta a data da doação; art. 639, parágrafo único, do CPC aponta a data da morte.
  • Benfeitorias feitas pelo donatário não entram na colação (art. 2.004, § 2º).
  • A dispensa de colação exige determinação expressa de saída da parte disponível (arts. 2.005 e 2.006).
  • Recusa em colacionar autoriza sequestro dos bens ou imputação do valor ao quinhão (art. 641 do CPC).

Perguntas frequentes

O que é adiantamento de legítima?

É o efeito que a lei atribui à doação feita por ascendente a descendente ou entre cônjuges. Pelo art. 544 do Código Civil, essa doação importa adiantamento do que cabe por herança, de modo que o bem recebido em vida é tratado como antecipação do quinhão hereditário e será considerado no inventário para igualar as legítimas dos demais herdeiros.

Como se faz a colação no inventário?

O herdeiro obrigado confere os bens recebidos por termo nos autos ou por petição, no prazo do art. 627 do Código de Processo Civil, que é o de quinze dias para manifestação sobre as primeiras declarações, conforme determina o art. 639. Não possuindo mais o bem, traz o valor. Havendo recusa, o juiz decide depois de ouvir as partes em quinze dias, pelo art. 641.

A doação volta pelo valor de hoje ou pelo valor da época?

A questão é controvertida. O art. 2.004 do Código Civil manda colacionar pelo valor certo ou estimativo atribuído no ato de liberalidade, ou, na falta dele, pelo que os bens valessem ao tempo da liberalidade. O parágrafo único do art. 639 do Código de Processo Civil manda calcular pelo valor ao tempo da abertura da sucessão. Os tribunais resolvem caso a caso, e a diferença pode ser muito significativa em doações antigas.

O que é doação inoficiosa?

É a doação que excede a parte de que o doador poderia dispor em testamento. O art. 549 do Código Civil declara nula a doação quanto à parte que exceder a disponível, calculada no momento da liberalidade. Como há herdeiros necessários, a disponível corresponde à metade dos bens, pelo art. 1.846. A nulidade atinge apenas o excesso, e não a doação inteira.

Doação de avô para neto também é adiantamento de legítima?

Depende de quem seria chamado à sucessão no momento do ato. O parágrafo único do art. 2.005 do Código Civil presume imputada na parte disponível a liberalidade feita a descendente que, ao tempo do ato, não seria chamado à sucessão na qualidade de herdeiro necessário. Se o filho do doador estava vivo quando o neto recebeu, a presunção é de imputação na disponível, e não de adiantamento de legítima.

Doei um terreno e meu filho construiu uma casa nele. Colaciona o quê?

Só o terreno. O § 2º do art. 2.004 do Código Civil estabelece que apenas o valor dos bens doados entra em colação, e não o das benfeitorias acrescidas, que pertencem ao herdeiro donatário, correndo também por conta dele os rendimentos, os lucros, os danos e as perdas que elas sofrerem.

Base legal citada

  • Código Civil, art. 544 — doação de ascendente a descendente como adiantamento de herança
  • Código Civil, art. 549 — nulidade da doação na parte que exceder a disponível
  • Código Civil, art. 1.846 — legítima correspondente à metade dos bens
  • Código Civil, art. 2.002 — obrigação de conferir o valor das doações recebidas
  • Código Civil, art. 2.003 — finalidade da colação e dever do donatário que já não possui o bem
  • Código Civil, art. 2.004 — valor de colação e exclusão das benfeitorias
  • Código Civil, art. 2.005 — dispensa de colação por determinação de saída da parte disponível
  • Código Civil, art. 2.006 — forma da dispensa, em testamento ou no título de liberalidade
  • Código de Processo Civil, art. 627 — prazo de manifestação sobre as primeiras declarações
  • Código de Processo Civil, art. 639 — conferência dos bens e valor ao tempo da abertura da sucessão
  • Código de Processo Civil, art. 640 — colação devida por quem renunciou ou foi excluído
  • Código de Processo Civil, art. 641 — consequências da recusa em colacionar

Conteúdo revisado pelo escritório e fundamentos gerais confirmados em fontes oficiais em 21 de outubro de 2026. A aplicação de cada regra depende dos documentos e das circunstâncias do caso concreto.